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segunda-feira, 22 de maio de 2017

Quando está longe dos palcos, Lulli Chiaro mantém a simpatia, a pose de galã e o charme que tanto evidenciam o seu trabalho. Essas características são, na verdade, as mais marcantes de sua personalidade. E ainda há o sorriso. Ao abrir a porta da sala de reuniões onde nos encontramos, o cantor exibe um sorriso contagiante enquanto finge dançar sozinho uma música romântica (e inexistente). Então, ele para. Para e me olha, abrindo os braços, como quem diz: “Você não vai me abraçar?”. Este é Lulli. Simplesmente Lulli, como acabei descobrindo ao longo da entrevista.
Uma das coisas que você logo percebe ao conversar com Lulli Chiaro é que ele está sempre em movimento. É elétrico, excêntrico e transita de um assunto para o outro com rapidez e naturalidade dignas de um rapaz. Logo que senta perto de mim, já começa falando sobre o insight que teve para a capa do seu novo álbum de inéditas, Sala de estar. “Eu tive uma ideia tola no início, de fazer uma capa numa sala clássica com algumas cadeiras. Algo muito comum, né? Mas aí me veio outra ideia. Visualiza comigo: o topo de uma montanha onde você tem nada mais do que o infinito aos seus pés. Não tem começo, meio e nem fim. Teremos algumas cadeiras vazias com o cume alto e, bem ao centro, no vazio imenso, eu e o piano. É uma ideia incrível, né?”.
Intenso (“O destino de todo homem é ser um eterno romântico – afinal, há prazer maior do que se apaixonar por uma mulher?”), curioso (“Me diz, qual é o seu signo?”) e vaidoso (“Eu acabei de dar um trato no meu cabelo, você gostou?), Lulli não poupa palavras para falar sobre qualquer assunto. E não é muito discreto: com uma camisa de botões descolada, o artista dificilmente passaria despercebido na rua. “São as mulheres que mais consomem o meu trabalho. Eu canto para elas”, sorri.
Pianista, compositor e cantor, Lulli Chiaro começou sua trajetória aos 16 anos de idade, quando compôs seu primeiro hit, a marchinha Jardim de infância, que ficou conhecida na voz de Ronnie Von. Porém, foi na infância rodeada pela arte que ele viu despertar seu interesse pela música. “Cresci num ambiente muito intelectual. Meu pai era escritor, minha irmã poetisa e o meu irmão mais velho artista plástico. Tudo era tão cultural e intenso. E, também, a casa estava sempre cheia, nós éramos em seis irmãos, sem contar os agregados. Era um choque de culturas muito grande”, relata. Quando pequeno, passava horas e horas ouvindo música clássica e italiana. “Sempre tive essa veia artística. Mas no começo tudo foi muito difícil”.
Aos sete anos, sem jamais ter estudado, o jovem Lulli foi à casa de um vizinho e pegou emprestado seu acordeon. Nele, tocou a canção preferida de sua mãe. “Você sabe quem era esse vizinho? O Adoniran Barbosa, um dos maiores artistas que esse Brasil já viu. E ele não tocava nada, o negócio dele era poesia. Essa parte da minha história é muito especial, porque o Adoniran acabou se tornando um grande incentivador da minha carreira artística. E, no final, ele até me deu esse acordeon, que tenho guardado até hoje”, relembra o cantor, com carinho. “Eu tenho essa coisa louca de ser autodidata, sabe? De ouvir as coisas e conseguir tocar um instrumento sem saber de fato como ele funciona. Isso pode ser muito bom em alguns aspectos, mas em outros, nem tanto”, reflete.
Anos mais tarde, outro episódio memorável, desta vez envolvendo a cantora Rosemary. “Ela também era minha vizinha. E estudava num conservatório porque os pais eram muito ricos. E minha família? Minha família não tinha dinheiro pra nada”, o cantor gargalha, mas retoma a fala logo em seguida. “Acontece que o pai da Rosemary conseguiu fazer um esquema para eu entrar no conservatório também. Fiquei três meses no Spartaco Rossi, até que estraguei tudo durante uma audição”, relembra. “Os alunos iam todos engomadinhos e eu lá, como um pobretão. Pra piorar, cheguei atrasado e perdi a hora da minha apresentação. Mas a professora fez questão que eu fizesse o meu número. Era para eu tocar Castelo azul, mas fiquei tão irritado com o talento dos outros alunos que acabei quebrando tudo e criando uma versão meio rock n’ roll do clássico. Resultado? Fui expulso no dia seguinte”, conta, aos risos.
Travesso em alguns momentos, prodígio em outros, Lulli Chiaro se viu numa encruzilhada na adolescência: a música pouco lhe dava retorno financeiro. Então, num ímpeto de coragem, resolveu largar tudo e dedicou-se aos estudos. Formou-se em direito, administração e marketing. “Aquela vida de artista amador estava ficando muito difícil e eu tinha que ajudar em casa. Foram incontáveis as vezes em que eu coloquei o meu compacto debaixo do braço e fui nas rádios pra ver se algo mudava. Mas não deu certo, não era a minha hora”. Apesar de ter feito diversos CDs promocionais ao longo dos anos e um número considerável de composições de sucesso, sua volta para a música só aconteceu efetivamente em 2014.
Se analisado agora, três anos depois do lançamento do disco homônimo que finalmente levou Lulli às paradas de sucesso, esse retorno parece ter sido uma obra do destino. Isso porque foi necessário um enorme hiato e diversos altos e baixos para o cantor encontrar seu lugar na música. E, quando ele enfim aconteceu, foi em grande estilo. Em 2014, o álbum foi o terceiro mais vendido da Sony Music e emplacou mais de 150 mil cópias. “Quando comecei a pensar naquele projeto, queria algo que fosse diferente. Então, decidi cantar em italiano. Acho que as pessoas têm uma certa carência por canções mais sinceras, maduras, que falam sobre amor de uma maneira mais sentida”, explica. “Deu certo e hoje eu tenho muito orgulho desse trabalho”.
Com o sucesso cada vez mais frequente, o cantor passou a emplacar uma série de composições em novelas. Em 2014, Vitória, interpretada por Rosemary, entrou para a trilha da trama de mesmo nome da Record, que ainda contou com Eternamente, interpretada pelo próprio Lulli. Já em 2016, o artista soltou a voz em Anos solidões, tema de abertura de Escrava mãe (Record). E, mais recentemente, produziu e compôs as faixas Gato xadrez (cantada por Bia Jordão) e Amigos da lua – que conta com ele nos vocais – para a novela infantil Carinha de anjo (SBT). “Foram anos intensos e cheios de muitos trabalhos e realizações. Depois de uma breve calmaria, estou pronto para o próximo passo”.
ENTRE, FIQUE À VONTADE
Agora, o cantor finaliza o seu novo álbum de inéditas. Sala de estar. Previsto para ser lançado em junho pela Sony Music, trará 13 canções, sendo cinco versões de grandes sucessos e oito músicas autorais. Uma delas, inclusive, foi escolhida para ser tema do longa Jogos clandestinos, a ser lançado no próximo ano. “Uma certa noite, o Caco Milano (diretor do filme) me ligou e disse: ‘Preciso de uma bela música para o longa. Aí nasceu Ti voglio bene, uma das faixas mais intensas do disco”, revela.
A expectativa em torno de Sala de estar é grande – afinal, o álbum tem a difícil tarefa de igualar (ou ultrapassar, quem sabe) o sucesso do trabalho anterior do cantor. Pergunto, então, a Lulli se ele tem noção disso. “Estamos muito confiantes com esse novo projeto. Chamamos um time incrível para trabalhar conosco, temos participações especiais de peso e uma produção impecável. Foram seis meses de trabalho intenso”.
Gravado em sete estúdios diferentes – alguns deles internacionais – o disco contará com arranjos de uma das orquestras mais antigas do mundo, a Filarmônica de São Petersburgo/Russia (criada em 1882). “Enviamos o material pra lá e os músicos ficaram responsáveis por seis faixas, incluindo Ti voglio bene”, conta Lulli. “Nesta parte, em especial, faremos um trabalho bem bacana em vídeo. Em breve, vamos liberar alguns clipes em que a orquestra aparece tocando e eu, cantando”, revela. Outras participações especiais incluem o dueto de Lulli e Ivan Lins em Abbandonato, canção romântica escrita pelo próprio cantor em parceria com Giggio e Valéria Mindel, e os arranjos do maestro Anderson Toleto em algumas faixas.
Engana-se quem pensa que Lulli dedica-se somente ao canto e à escrita. Pelo contrário. Ele também é produtor nas horas vagas. Inclusive, acabou de finalizar o novo álbum de estúdio de sua amiga e parceira Rosemary. O projeto, a ser lançado em breve, ainda conta com oito composições suas. Em paralelo, ele também trabalha no disco da dupla sertaneja Wesley & Lucas. “Tem sido um desafio para mim, mas estou adorando”, revela o artista. Sorridente, ele estufa o peito para contar mais uma novidade: “Eu também virei ator recentemente! Lembra do filme de que falei, Jogos clandestinos? Fiz uma ponta nele!”. No longa, Lulli interpreta o cantor e pianista Salvatore, que passa suas noites cantando num cassino clandestino.
Em quatro horas de conversa, sinto que transitamos pelos mais diversos assuntos: música, poesia, astrologia, arte, política, cinema e teatro. E isso é bom, só agrega. Então, me levanto e aperto a mão de Lulli. Ele dá uma risada sincera – e charmosamente indomada – e me olha nos olhos. Desta vez, sou eu quem o encara, como quem diz: “Eu não vou ganhar um abraço?”. Nos abraçamos e Lulli segue o seu rumo, cantando uma música animada.



Foto e link total de:https://web.portalsucesso.com.br/entrevistas/lulli-chiaro
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